Uma típica cena suburbana desenhada por Jano.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Cartão de Natal


“Prova de amor maior não há
Que doar a vida pelo irmão”
(Canção litúrgica)


Todos os anos, nessa época, as pessoas enviam cartões com votos de boas festas e mensagens de paz e fraternidade. Nos tempos modernos, o espírito natalino impulsiona bastante o comércio e movimenta bem o mercado. Sendo assim, importa mais o valor dos presentes do que o valor de ser presente. Por isso, não pensei em um cartão de natal que tivesse neve, renas, árvores ou enfeites, mas rostos... simplesmente rostos de homens e mulheres de muita presença.

Sabe o que estas pessoas tiveram em comum? Todas foram assassinadas na luta por justiça. Todas levaram seu amor ao próximo ao limite de entregar sua própria vida. Então, agora me responda: quem seguiu mais e melhor os passos de quem foi torturado e morreu na cruz, estes leigos, sacerdotes e religiosos, ou aqueles ficam nos palcos-altares batendo palminha? Os que precisam fechar os olhos para sentir a presença de Jesus ou estes que, enquanto tinham seus olhos abertos, viram o Cristo no rosto dos oprimidos?

Faça um pequeno teste: você conhece a história pessoal de quantas destas pessoas? Pois é. Sabia que ainda há nos dias de hoje muitos que seguem os mesmos passos que elas seguiram quando vivas? Como, se ninguém vê? Acontece que gente assim não está em programas de rádio e televisão, mas conhece de fato as pessoas (que não levam vida de rádio e tv) e onde elas moram (quando moram!).

Pense em tudo isso e tenha um "FELIZ NATAL"!!!

Márcio Hilário.
20-12-2012


PS: Ah! Já ia me esquecendo: os responsáveis por essas mortes (e outras tantas, quem sabe?) estão livres, leves e soltos até agora!!!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Leonardo Boff: o militante completa 73 anos


Como alguém como eu poderia encontrar as palavras certas para homenagear um homem que é absolutamente fundamental na minha vida. Encontrei Leonardo Boff pessoalmente em três ocasiões: numa palestra no CCBB, nos corredores da Bienal do Livro do Rio e no I Encontro Nacional de Fé e Política, em Santo André, São Paulo. Na última delas, em dezembro de 2000, com os olhos cheios d’água, pude dizer-lhe, do fundo do meu coração, como lhe sou grato por tudo o que ele fez, o que ele disse e o que ele é. Não me esqueço daquela senhora na fila para pedir-lhe que autografasse um livro seu que ela tinha nas mãos: humilde mulher para quem suas palavras tocaram tão fundo quanto em mim. Mas não... não é idolatria que ele merece. Merece ter o mundo que sempre sonhou e para o qual nunca cansou de lutar.


Em outros momentos, as Histórias do Subúrbio já falaram sobre o Anel de Tucum e a Teologia da Libertação. A personificação de tudo o que isso representa para mim é Leonardo Boff. Além de ter aprendido muitíssimo com sua forma de ver o mundo, fui com ele capaz de perceber que há muito mais cristianismo na luta incansável e militante por justiça social do que em longas horas de meditação na clausura de um templo, orando por transformações abstratas para um mundo ilusório. Há muito mais de Jesus na solidariedade dos humildes, que doam mesmo sem ter o que dar, do que na caridade automática e esvaziada dos ricos. Os pobres são nossos mestres e os miseráveis, os nossos doutores. É preciso ouvir seu lamento e atender ao seu clamor.


Para Leonardo Boff, o maior ensinamento de Cristo está na oração na qual se fala não apenas de um Pai nosso, mas, sobretudo, de um Pão nosso. Nesse sentido, ele via um “Jesus Cristo libertador”, que não morreu doente numa cama cercado de discípulos, mas como um militante da justiça. E por ela foi preso, torturado e assassinado. Essa é a mensagem fundamental: a fé não existe para uma práxis meramente contemplativa e alienada, mas sim para uma ação orgânica e crítica na luta por justiça, sobretudo em favor dos mais humildes. Sendo assim, o melhor presente de aniversário que podemos dar um homem como Boff não é falar dele ou apenas ler o que ele escreveu, mas juntar-se a ele em sua eterna militância.

Márcio Hilário

14-12-2011



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um batuque imperial


Amigos, hoje é um dia muito muito muito especial.
Há 174 anos, foi criado o Imperial Colégio de D. Pedro II, que logo se tornou a menina dos olhos do Imperador e o modelo para a educação brasileira. Naquela ocasião, os alunos eram praticamente todos da elite branca de homens livres da nossa sociedade.
14 anos depois, a filha do Imperador D. Pedro II assinou um documento que acabou com uma das p...áginas mais vergonhosas da história do Brasil: a escravidão. Depois disso, embora as portas das senzalas já não estivessem mais trancadas, as das escolas ainda não estavam abertas aos negros.
Livres dos açoites mas ainda presos na miséria, os negros teimavam em sobreviver e ainda reuniam forças pra cantar. Foi assim que nasceu o samba. Expressão em forma de música da resistência cultural negra. E como todo filho de pobre, o samba também já nasceu marginalizado: o sambista foi criminalizado e seus instrumentos e ritmos, demonizados.
Acontece que o tempo passou...
As coisas podem ainda estar longe, muito longe, do ideal, mas uma coisa é certa: hoje, as portas do Colégio Pedro II estão abertas aos netos e bisnetos de escravos, que podem neste dia livremente celebrar duas festas: o aniversário do Cp2 e o Dia Nacional do Samba!!!!!
Márcio Hilário
02-12-2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os Estudantes e a PM: só um tapinha não dói


“Era só mais uma dura

Resquício de ditadura

Mostrando a mentalidade

De quem se sente autoridade

Nesse tribunal de rua”

(Marcelo Yuka)



Universitários reivindicam a saída da PM do campus após a prisão de colegas que fumavam maconha. Era mais ou menos assim a notícia que me fez pensar um pouco na questão para entender melhor a mobilização estudantil. Teria sido ela motivada exclusivamente pelo episódio da repressão ao consumo de drogas dentro da universidade ou, numa visão mais ampla, por temer que a liberdade de expressão fique ameaçada, impedindo, assim, futuras manifestações? Continuei pensando sobre o assunto.

Que a maconha já está mais do que institucionalizada no meio estudantil é fato. Aliás, ela já faz parte da cultura universitária. Calma. É claro que eu não estou afirmando que todo estudante do ensino superior é usuário, mas sim que o poderia ser, se assim o desejasse. Todo mundo sabe (ou pode saber) onde, quando, como e com quem comprar e onde, quando, como e com quem fumar. Para alguns, deveria estar até na grade curricular: Maconha I, Maconha II, Maconha III etc. É normal. Logo, quem entrou de gaiato nessa história foi a PM.

O problema é que a PM não entende isso. Ou entende e não acha tudo tão normal assim. Afinal, quem é do subúrbio sabe muito bem que na nossa área não cola esse papo de cultural ou forma de expressão não. Lá não tem tanguinha de crochê nem qualquer glamour ou idealismo. Que usuário que nada, é maconheiro mesmo! E quem dá um tapinha leva logo um tapão dos ómi. Quando olha pra frente, o pôr do sol está no cano de uma arma. É cabeça baixa e coturno nas costelas. E tudo isso por quê? Maconha é ilegal, marginal!!!

E era justamente aqui onde eu queria chegar. A questão é liberar geral ou só para um grupo? A lei deveria valer para todos ou para alguns? Quando há intervenção militar em áreas de exclusão, o lema é a territorialidade. Ou seja, a necessidade de reconquistar espaços que, ao serem abandonados pelo estado, foram dominados por grupos armados que criaram e impuseram suas próprias leis à margem da Constituição. Ora, se é desse modo, por que só as universidades, as casas de show e o Posto 9 têm privilégios territoriais? O subúrbio também quer.

Quanto ao impasse na universidade, cabe à polícia entender que a sua função é, antes de tudo, proteger o e servir ao cidadão e não vigiá-lo e puni-lo. Seu dever é garantir os direitos de ir e vir e de livre manifestação dos membros da comunidade universitária, bem como zelar pelo patrimônio público. Do lado dos estudantes, cabe cumprir as leis que regem o país e, em caso de discordância, lutar para modificá-las, utilizando todos os mecanismos que sejam compatíveis a um estado de direitos. Para tanto, é preciso contar com menos paus, pedras, máscaras e pichações, e mais com aquilo que deveria ser o seu diferencial qualitativo na sociedade: a inteligência.


Márcio Hilário

08-11-2011



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O lobo de Gúbio


Na primeira semana de outubro comemoramos o dia dos animais. Segundo a circense pedagogia moderna, é o período ideal para a realização e correção das provas bimestrais. Já em escolas tradicionais e religiosas, como aquela em que estudei na infância, era o dia de levarmos os nossos bichinhos de estimação – cães, gatos, tartarugas, hamisters e irmãos caçulas – para serem devidamente expostos, apertados e abençoados. Era o dia de São Francisco de Assis.

A escola da minha infância era batizada com o nome do santo e em suas paredes, portas, grades e portões predominava o marrom, assim como em nossos uniformes, inspirados nas roupas dos frades menores. Entretanto, apesar disso tudo, foi o lugar onde eu menos aprendi sobre aquele jovem maluco de Assis. Ora, o fato é que nunca gostei e ainda não gosto dessa caracterização de Francisco como uma espécie de Ace Ventura medieval: o homem que falava com os animais. Ohhhh!!! Que fofo!!!

Lembremos, por exemplo, daquele célebre episódio do ferocíssimo lobo que assolava a cidade de Gúbio, atacando pessoas e outros animais, e que foi amansado por Francisco, que, em seguida, passeou com ele pela cidade e estabeleceu a paz entre seus moradores e a fera. O evento faz a gente pensar: se São Jorge tivesse a lábia de São Francisco, o dragão não tinha virado picolé! Sorte que as ONGs protetoras de animais ainda não existiam!

Entendamos melhor a simbologia que a escola não me ensinou: Francisco tinha uma atitude de defesa dos mais fracos, dos miseráveis, e isso valia para toda criatura. O lobo matava as galinhas e outros pequenos animais para saciar a fome. Em resposta, os homens se armaram para matar o lobo, que, por sua vez, passou a atacar mais e mais homens. E o que fez o pobrezinho de Assis para acabar com esse ciclo de violência e morte? Chamou o BOPE? Não. Criou um novo paradigma na relação entre o lobo e as pessoas de Gúbio: elas o alimentariam todos os dias e ele lhes retribuiria com o afeto recíproco.

A mensagem de Francisco é perfeitamente viva em nossos dias. Precisamos aprender que não se combate injustiça social com violência, mas com uma ação efetiva de amor e compaixão. Precisamos olhar para as crianças e jovens que estão pelas ruas e enxergar menos o monstro e mais a criatura que, com nós, merece uma vida plena. Precisamos aprender que amansar o lobo não é aliená-lo, resigná-lo ou silenciá-lo, mas sim garantir-lhe dignidade. Precisamos, enfim, aprender a aprender a amar, como o fez o garoto de Assis.

Márcio Hilário

05/10/2011



sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O verdadeiro sabor da vida

(Poema "Nasce morre", Haroldo de Campos, 1958)



E se alguém perguntasse quantas vezes podemos nascer para a vida? Uma vez só, ué! Responderíamos expulsando as palavras da ponta da língua. Mas será mesmo que realmente ascemos uma vezinha e pronto? Não tenho tanta certeza disso. Pode ser que possamos vir à luz todos os dias, quem sabe. Calma mãe! É apenas no sentido figurado, ninguém vai obrigá-la a fazer sete partos por semana! O fato é que, a todo instante, podemos experimentar da vida coisas que para nós eram impensadas há minutos atrás.

Na pele de Álvaro de Campos, vivendo uma noite terrível, Fernando Pessoa se queixava de como a vida é sempre uma batalha perdida por um placar bem expressivo: o infinito a zero. Afinal, todas as vezes que escolhemos fazer algo em especial, automaticamente também deixamos de fazer toda uma infinidade de outras coisas possíveis. E o que é pior: as experiências vividas ficam eternizadas na memória, mas e aquelas que não aconteceram? Essas ficam perdidas para sempre. Puxa!

Olha! Longe de mim querer dizer que o poeta está errado, mas pensemos por outro lado. Do mesmo modo que nunca poderemos ter de volta todas as coisas que deixamos de fazer, como não sabíamos mesmo o que era e como ainda não morremos, a vida nos oferece a oportunidade de vivê-las sem ter essa certeza. Assim, tudo o que está por vir é inevitavelmente uma grande surpresa. E é isso o que pode fazer da vida um mistério e viver passa a ser assim uma arte bem legal.

Vejam o caso de um grande amigo meu, por exemplo. Viu toda a sua família ser assassinada juntamente com os mais tenros dias da sua infância vivida no gueto e no campo de extermínio durante a Segunda Guerra Mundial. Depois disso, não ficou imune a outras tantas amarguras da vida: perdeu mais entes queridos e lutou contra a sua frágil saúde. Apesar de tudo, aos 84 anos de idade, foi capaz de se emocionar ao comer algodão doce pela primeira vez na vida: a infância perdida renasceu naquele dia, pequeno Henryk!

Márcio Hilário.

30-09-2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Guerra de canudos, copos e pratos vazios



Quando eu era pequeno, acreditava seriamente que a expressão “Guerra de Canudos” fazia referência a algum episódio ocorrido numa lanchonete estilo fast food. Algo que envolvesse uma disputa entre clientes que, estressados pelo péssimo atendimento da casa, resolveram promover um quebra-quebra geral. Coisa que nos jornais sensacionalistas de hoje pudesse vir noticiada na primeira página mais ou menos assim: “Guerra de Canudos: clientes boladões quebram a dieta e o podrão”. Que idéia! Eu devia estar mesmo à frente do meu tempo.


Mas antes fosse o bafão na lanchonete, porque no sertão a chapa ficou muito mais quente. Foi o que eu li nos livros da história oficial. Diz que um bando de fanáticos religiosos sertanejos, liderados por um doido varrido com cara de beato e armados com facões e enxadas, planejava invadir a propriedade privada, tomar o poder, derrubar o governo republicano e impedir o avanço do país – mais ou menos o que a imprensa de hoje diz a respeito dos baderneiros do MST! Ainda bem que o exército chegou lá em Canudos e matou todo mundo, tipo Carajás.



Assim ficou tudo explicado? Quem me dera! Quando fui estudar literatura, conheci um tal de Euclides, que esteve lá no meio do furdunço e desmentiu em livro tudo o que foi contado pela oficial versão dos oficiais. Caguetou geral. Para ele, o episódio de Canudos não era um caso isolado na nossa história, mas um sintoma endêmico de uma sociedade forjada a partir da ótica opressora do homem civilizado civilizando o não-civilizado. Os sertanejos, na perspectiva euclidiana, eram, antes de tudo, bravos, e seu único fanatismo era sobreviver ao abandono do estado e aos disparos dos canhões da civilização.


Aí, deu ruim! Depois dessa também, fiquei boladão e passei a desconfiar de tudo. É por isso que fico sempre muito preocupado ao ver hoje os membros da nossa sociedade urbana e civilizada aplaudirem entusiasticamente os exercícios bélicos do governo tentando levar cidadania aos excluídos. Pior do que uma briga de lanchonete, essa justa batalha civilizatória coloca na mira de blindados e carros de combate homens, mulheres, velhos e crianças armados de copos e pratos vazios.


Márcio Hilário

15-09-2011




terça-feira, 30 de agosto de 2011

Batidas na porta da frente


O que não for para agora já não presta. Se não foi para ontem, amanhã já será tarde demais. Frases curtas, histórias curtas, memórias curtas, transas curtas, paixões curtas, vida... acabou! Até a velocidade demora, melhor é a velô! Assim somos nós em nossos dias cada vez menores. Tudo se tem em a cada vez menos tempo. E a cada vez, temos menos tempo para tudo. O pior é que a cada tempo temos cada vez menos vez em tudo.


Em crônica de 1855, o escritor José de Alencar, encantado com o desenvolvimento da imprensa nacional e com o surgimento das primeiras estradas de ferro, profetizou que a combinação da tipografia com o vapor fariam com que de seu gabinete um homem se comunicasse com um mundo de gente. Nossa! A possibilidade de um texto poder circular por campos abertos que vão para além das redondezas paroquiais é realmente incrível.


Fico pensando o que diria o romancista, então, se pudesse ter conhecido a nossa da rede mundial de computadores e visto realmente que um homem da sua casa pode estar interligado com o mundo inteiro. Imagino as possibilidades infinitas de trocas literárias que não passariam pela cabeça do escritor. Com um computador na mão e uma conexão de banda larga, Alencar ficaria literalmente igual a um pinto no lixo! Será?


Infelizmente, é provável que seus textos tivessem a mesma quantidade de leitores que têm hoje. Afinal, diga-se de passagem, toda a sua obra já está bem disponível na rede. O problema é que pouca gente a lê. Alencar, então, ficaria triste, mas não creio que o fruto de sua tristeza fosse o fato de não ter sido “add” por ninguém. Creio que o motivo que levaria o escritor à depressão seria o seguinte: como, tendo um meio tão poderoso de comunicação, essas pessoas preferem escrever tolices e futilidades?


A isso, responderia um internauta: L! Outro completaria em miguxês: ahrzdrklasdj!!! E o mais metido a culto decretaria: É uma questão de tempo! Não dá pra perder tempo! Precisamos de objetividade! Ir direto ao ponto! Alencar, então, que sempre gostou de uma polêmica bateria assim: Tempo é uma questão de prioridade. Na minha época, tudo era manuscrito e nem por isso deixei de ler e escrever muito todos os dias. Eu também não tinha tempo a perder. Ao contrário, queria era vencê-lo. Por isso, tornei-me eterno, enquanto a vocês cabe apenas a fugacidade do instante!


E eu... se estivesse nesse chat... diria algo não tão profundo, mas que os internautas pudessem entender: aaaaaaaiiiiiii! tomaaaa! rs.



Márcio Hilário

30-08-2011





quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Barrados no baile

“Quando nascemos fomos programados

A receber que vocês nos empurraram

Com os enlatados U.S.A. de 9 às 6.”

(“Geração Coca-Cola”, Legião Urbana)


Fato: a televisão ocupa um espaço excessivo na vida do brasileiro. Para muitas pessoas ela é o único meio de informação, educação, lazer e entretenimento. Inspirada no modo americano de produção de bens culturais, o objetivo inicial e final da TV brasileira é cada vez mais descaradamente o consumo. Roupas, objetos, expressões, gestos, linguagens, enfim, tudo o que possa ser veiculado pelas imagens, que, no fim, para muitos, é a única coisa a qual se tem acesso de verdade. O padrão é o das elites: para ser mais exato, das elites da região Sudeste... ou melhor, do Rio de Janeiro... mas da cidade do Rio... no caso, da Zona Sul... especificamente, do Leblon. Ou seja, nem de muito longe isso representa o modo de vida de 200 milhões de brasileiros. E ainda inventaram a Barra! Ou melhor, a maquete tupiniquim da Nova Iorque carioca. Medo!

Como nossos desgovernos não são nada interessados em investir de verdade em outras formas de manifestação cultural que possibilitem crescimento cognitivo e intelectual às massas, a televisão tem vida muito longa pela frente. Ao espectador, consumidor de imagem, resta sentar diante da telinha e, quando muito, manifestar alguma insatisfação trocando de canal para ver mais do mesmo. Os programas se repetem, as novelas se repetem, as notícias se repetem, os jogos se repetem, tudo se repete para a contemplação passiva dos olhos alienados estampados em caras de novidade. As elites determinam quando a moda vem ou vai e o subúrbio faz da pirataria sua forma de usar o mesmo que os artistas.

Com os canais por assinatura, a coisa ficou ainda mais complexa nos grandes centros. Agora são dezenas de canais a repetirem o mais do mesmo com cara de novidade. Tudo se sucede numa velocidade espantosa. É difícil acompanhar. Principalmente quando não se tem tempo. E o pior é que, sendo professor, acabo passando vergonha! Fui dizer, por exemplo, em uma turma que eu estava achando muito engraçado um enlatado americano que eu, por acaso, começara a acompanhar... pronto! Todos os alunos começaram a rir dizendo que já tinham até parado de gravar a série há uns dez anos. Fiquei realmente com cara de bobo e me senti como um velhote fã de Jovem Guarda.

Depois caiu a ficha: eu estava somente uns dez anos atrasado para uma coisa que a televisão vai acabar reinventando de novo. E os meus jovens televisivos? Será que eles teriam não só tempo, mas, sobretudo, instrumental para uma boa leitura? Quando percebi que a maioria deles nem sequer saberia escolher numa livraria uma boa obra do nosso riquíssimo acervo cultural literário brasileiro e que possivelmente lhes faltariam ferramentas para fazer uma leitura crítica dessas obras, acabei me dando conta de que o meu atraso era bem pequeno.

Márcio Hilário.

24-08-2011




domingo, 31 de julho de 2011

É o tempo de pipas no alto



Não difícil perceber que o Rio de Janeiro está no auge das férias escolares. Na Zona Sul ou na Zona Oeste, as praias ficam lotadas de jovens e adolescentes sejam os dias úteis ou inúteis. Já na Zona Norte, as praças e os shoppings que acabam repletos de pequenos grupos juvenis andando pra lá e pra cá sem destino certo. Agora, nos subúrbios da cidade ou na minha velha e querida Baixada, o buraco é bem mais embaixo... ou melhor, em cima. É o tempo ideal para os adolescentes e suas incríveis engenhocas voadoras. É o tempo de pipas no alto.

Uma pipa é o mesmo que um papagaio, apesar de certos papagaios possuírem penas e mal hábito de contar piadas chulas. A estrutura da pipa é composta por duas varetas de bambu cruzadas a uma outra maior e principal, presas com linhas que também fazem a borda para que tudo seja encapado com papel fino colorido. Uma calda, ou rabiola – que é uma espécie de varal de pequenas tiras de papel amarradas lado a lado –, é presa à base da pipa, a fim de proporcionar peso e garantir estabilidade no vôo.

Aos olhos infantis, encanta o céu multicolorido entrecortado pelo vôo daqueles pequenos cometas de madeira e papel. Nesse quadro celeste, toda criança – mesmo que adulta – pode escrever livremente suas poesias aladas, deixando voar todo o lirismo que transborda do seu coração. Como pilotos de aviões de caça, disputam o céu em aventuras e batalhas que não produzem dor nem morte. Tudo é só beleza e fantasia.

Aos olhos adultos, é tempo de crianças desafiando o trânsito com uma imprudência suicida, pulando muros e invadindo casas em gritos frenéticos a incomodar o dia todo. Armadas com linhas cortantes, cheias de vidro moído e cola, são como assassinos em potencial armados e em busca de vítimas, motocicletas e antenas de televisão.

Cai a noite. Os adultos podem mergulhar tranquilamente na escuridão silenciosa de um mundo sem crianças barulhentas. As crianças podem deitar e dormir sonhando com uma manhã bem ensolarada e com muitas pipas no alto. E no confronto dessas duas visões de mundo seguem as férias suburbanas, que ainda teimam em resistir ao isolamento da modernidade, apesar da presença do vídeo-game.

Márcio Hilário

29/07/2011



quarta-feira, 6 de julho de 2011

O silêncio da namoradeira



“Em cada porta um bem freqüente olheiro,

Que a vida do vizinho e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,

Para o levar à praça e ao terreiro.”

(Gregório de Matos)



Uma das coisas mais maneiras que tenho visto recentemente no subúrbio é que as pessoas importaram a moda veranista colocando aquelas bonecas namoradeiras nas janelas para tomar conta da vida dos outros. Quem é suburbano da gema sabe que essa é uma versão inanimada da tradicional fofoqueira do bairro, que é uma das personagens mais folclóricas do nosso cotidiano. Sabem aquelas com telhado de vidro bem fininho, que rotulam os filhos dos outros como vagabundas e maconheiros, mas não olham para suas próprias crias? Pois é. Lembro-me, por exemplo, de uma da minha rua que ficava tanto tempo na janela do prédio que me via ir e voltar da escola, do maternal ao ensino médio. Ela sabia até quando era dia prova e só faltava comparecer à reunião de pais para pegar o boletim. Aqueles cotovelos eram casados com comunhão de bens com o parapeito da janela. Depois que ela morreu, as janelas foram trocadas. Dizem as outras más línguas que seguiu tudo junto com a dona no caixão.



Mas voltemos ao caso das namoradeiras. Afinal, qual é a grande diferença que entre elas e o seu protótipo humano? O silêncio. Enquanto as fofoqueiras seguem aquele ritual acadêmico de ensino, pesquisa e extensão tão bem descrito pelo nosso barroco Gregório de Matos, as namoradeiras só observam e nunca falam nada. As fofoqueiras são mais completas. E, como têm pernas, elas possuem um alcance muito superior ao limitado campo de visão da janela. Elas literalmente vão atrás das notícias. Algumas têm até um quê de legista e fazem questão de serem as primeiras a chegarem ao local do crime quando pinta um presunto fresco. Mas não param por aí: além de fazerem o laudo, promovem a investigação, encaminham a denúncia, conduzem o julgamento, proclamam o veredicto e estabelecem a sentença. É x-tudo completaço, com batata palha e ovo de codorna. E as namoradeiras? Nem tiram a mão no queixo para não apontarem o dedo. Além de continuarem inexoravelmente mudas. E foi esse silêncio que confundiu a cabeça da minha família.



Meu tio resolveu ir ao quintal para dar uma aliviadazinha na bexiga. Não. Não é que não tenha banheiro em casa. É que urinar a luz do luar é escatologicamente poético. Só que foi nessa de olhar para a paisagem que acabou levando um baita susto e quase molhou as calças. Havia uma mulher na janela do vizinho contemplando o horizonte e deu um baita flagra no maroto. Fosse um daqueles caras que passam buzinando na beira da estrada e ainda gritam mijãããooo, ele ainda viraria balangando o mijador, mas para a esposa do vizinho jamais faria isso. Pior é se batesse aquela sanha de tarado exibicionista: acabaria acreditando que aquela falsa pudica tinha era um fetiche voyerista e escondia dentro de si uma verdadeira devassa. Ocorre que a realidade dos fatos não me deixa mentir e a taradinha da janela era apenas uma indiscreta e inerte namoradeira, sem voz e sem vez.



Tudo isso foi contado numa daquelas rodas familiares que nunca acabam em uma só história. Minha tia – irmã do mijão naturista – tomou a palavra e contou seu causo. Ia ela a caminho de visitar uma outra tia minha, que havia se mudado, e nada de encontrar o endereço. Família grande e nômade tem dessas coisas. Pegou o celular e ligou para a minha mãe para confirmar a rota. Sobe rua, desce rua e nada. No subúrbio a numeração, quando existe, não tem coerência alguma. Já quase desistindo, avistou uma vizinha na janela e decidiu educadamente pedir-lhe ajuda. Ô senhora, sabe onde mora fulana? Ô senhora? Ei? (Paciência tem limite... e cordialidade também!). Ô, carvalho (licença poética!), não tá me vendo aqui não, poxa (outra licença!)? Então vai... (habeas corpus poético!)



Resumo da narração: namoradeiras podem até não falar, mas têm de ver e ouvir cada coisa!




Márcio Hilário


06/07/2011


quarta-feira, 22 de junho de 2011

O calendário amoroso do Brasil



Se o tempo fosse apenas uma linha reta, como de fato é, e as coisas não pudessem mais se repetir, a cronologia amorosa brasileira seria uma verdadeira bagunça, já que ela tradicionalmente consagra maio como o mês das noivas e das mães e junho como o mês dos namorados e do casamenteiro Santo Antônio. Tentando organizar logicamente os elementos dessa narrativa, pensei em duas hipóteses. Na primeira, mães solteiras durante um mês tentariam de tudo e fariam até promessa para arrumar um casamento; Antônio prepararia o clima romântico do dia 12 e viria cobrar a fatura no dia 13. Na segunda, mais surrealista, a criança, logo após o parto, receberia da mãe um ultimato: Vamos cortar logo esse cordão umbilical, você tem um mês para arranjar um namorado, casar e sair de casa!


O que ocorre mesmo é que essas datas chegam à nossa cultura por muitos caminhos diferentes. Maio, por exemplo, é para a igreja católica o mês de consagração à Maria, que era mãe, casada e matrona da família mais famosa da história. Parece lógico, então, para a tradição religiosa, que as solteiras queiram apressar logo seu projeto matrimonial. Aliás, palavras curiosas: seria coincidência o fato de “matrimônio” ter a ver com mãe e casamento, enquanto “patrimônio” com pai e dinheiro? Pois bem, existe ainda quem acredite que o costume tem origens medievais, porque maio era o único período do ano em que se tomava um banhinho para as núpcias. Há quem diga que o buquê de flores era uma espécie de sachê para disfarçar o futum.


Já Santo Antônio – que eu achava que era padrinho de Jesus, porque sempre aparecia com o menino no colo – era um grande orador, apaziguava conflitos familiares e unia as pessoas e até os lugares – talvez por isso seja de Pádua, mesmo tendo nascido em Lisboa. Recebeu o título de casamenteiro por seus patrícios lusitanos e no Brasil furou o olho de São Valentim, roubando-lhe
o dia dos namorados, que no resto do mundo é comemorado em 14 de fevereiro. Diga-se de passagem, trazer o dia dos pombinhos para a véspera do dia do casamenteiro foi uma bela jogada comercial para aproveitar a popularidade da data e do santo. Loucas por um casamento, as mulheres costumam fazer toda a sorte de promessas e simpatias (eufemismo católico para o que nas outras religiões seria feitiçaria ou macumba!) e as pessoas gastam aos tubos com jantares e presentes.


De qualquer forma, o que importa é que os tempos realmente se sucedem, mas o calendário sempre se repete. É por isso que é possível organizar aquela narrativa inicial de outra maneira. Tudo começaria no dia dos namorados, quando o casal se conheceria e, sem que o cara percebesse, no dia seguinte, viria a pernada de Santo Antônio: a menina já marcaria o casório para maio do ano seguinte e de lá encomendaria à cegonha seu bilhete para celebrar de camarote o dia das mães no próximo ano. Seja como for, por via das dúvidas, eu, que sou da Baixada e não sou bagunça, no último dia 13 de junho, deixei minhas cuecas bem longe do varal e das imagens de Santo Antônio.


Márcio Hilário

17-06-2011



terça-feira, 31 de maio de 2011

A culpa é do pipoqueiro



O amigo leitor pode até não saber, assim como minha família pode achar que nunca escrevi nada sobre ela, mas acontece que ela está tão em mim que todas as minhas palavras se confundem com as coisas que ouvi desde pequeno e venho acumulando desde então. É aquela típica família suburbana, com quintal, muitas comidas gordurosas e carregadas, cerveja suficiente para matar a sede de vinte e oito camelos e, obviamente, muito barulho harmonizado com gritos para as crianças que também gritam, fala alta direcionada a quem está logo ali do lado e muitas muitas muitas gargalhadas de fazer chorar, perder o fôlego e conter a barriga com a mão.

Numa dessas conversas de quintal – certamente a continuação de alguma festa que começou no dia anterior e teimou em não acabar, é o que chamamos de enterro dos ossos! –, uma de minhas primas, aliás, essa também é uma característica elementar das família suburbanas, elas são enormes... mas então, em conversa que não se sabe por que entrou ou gerou o tópico da dificuldade de criar as novas gerações, uma de minhas primas personificou todas as suas queixas e lamentações em um personagem: o pipoqueiro. Segundo ela, aquele maldito homem tinha de ficar justo ali na porta da escola? Poxa, a criança vê o sujeito e, claro, enche o saco pra comprar a tal da pipoca! Isso é todo dia! Não tinha outro lugar pra esse mala ficar? Resposta dos ouvintes: gargalhada geral!

Ao ouvir o som da claque, meu primo, que estava dominicalmente deitado no sofá da sala e pestanejava diante da tevê, levantou-se e foi correndo fazer as devidas atualizações. E já devidamente atualizado – essas coisas correm ainda mais rápido do que notícia ruim –, ele decretou gaiatamente o seguinte veredito: Pode deixar! Na qualidade de padrinho, eu assumo a responsabilidade de resolver isso. Amanhã mesmo eu vou lá e quebro os dois braços do sujeito. Assim, ele não tem mais como girar a manivela da pipoqueira! Dito isso, o imponente orador encerrou seu pragmático discurso com uma sonora gargalhada, dando a deixa para a entrada do coro, que já rolava de tanto rir.

É desse jeito. Quando nos reunimos em um bom quintal, seja pequeno ou grande, ele corre o risco de se transformar em duas coisas: levantando os muros, vira hospício; erguendo uma lona, vira circo. Mas uma coisa é certa: se para os antropólogos, essa família não seria nada mais do que um microcosmos do nosso país, igual a outras tantas famílias brasileiras, isso é problemas deles. A minha é diferente e especial. Óbvio. Ela é a minha. Tão minha quanto aquela aldeia é do Fernando Pessoa e por isso tem o rio mais bonito. Com seus erros e acertos, suas qualidades e defeitos, a família é o que eu possuo de mais valioso, porque me ensinou todos os valores em que acredito e pelos quais luto diariamente... Ah! Por falar nisso, o pipoqueiro passa bem, tá? E eu espero que todos nós assumamos as nossas próprias responsabilidades ao invés de jogá-las nas costas dos outros, ok?


Márcio Hilário.

31-05-2011



quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um sujeito artesanal


Sem dúvida, a imagem-símbolo do mundo industrial é aquela de Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos. A figura do apertador de parafusos, fixamente concentrado em sua função na linha de montagem e alienado do processo conjuntural, opõe-se radicalmente à imagem do artesão, que, além de participar de todas as etapas do processo de elaboração do objeto artístico, consegue projetar já na matéria-prima o produto final de seu intento.


Certa vez, assisti ao ator Pedro Cardoso distinguir a televisão do teatro, respectivamente, pela oposição metafórica industrial vs artesanal. Para ele, a televisão aceita bem a reprodução de si mesma, corrige as imperfeições com recursos tecnológicos e faz uma comunicação fria, distanciada e monológica, já que o espectador está em casa e, por isso mesmo, não pode responder. O teatro, por sua vez, aceita menos o modo industrial de produção de bens culturais: o ator precisa estar realmente ali, fazendo o espetáculo para um público que reage e interage. Além disso, uma reapresentação não é o mesmo que um vídeo tape, já que o ator tem de fazer tudo de novo, para uma nova platéia, que pode responder de outra forma. Sendo assim, cada espetáculo é um todo novo.


O publicitário Duda Mendonça já escreveu um livro no qual afirmava que não entendia porque certos políticos perdiam tempo fazendo comícios, visto que com um bom programa no horário eleitoral eles atingiriam muito mais gente de uma maneira bem mais eficiente, intimista, entrando na casa das pessoas. A eficácia desse modo industrial de fazer política na sociedade do espetáculo fica ainda mais evidente quando constatamos o grande número de atores, apresentadores, radialistas e músicos que têm sido os campeões nas urnas. A participação em movimentos sociais, o diálogo permanente com as bases e a formação de uma militância foram substituídos pelo luz, câmera, ação.


É por essa e por outras que, diante de uma lógica industrial, que dissemina a fragmentação, a superespecialização e a conseqüente alienação do todo como um princípio que se estende a todas as áreas do conhecimento humano, cheguei à seguinte conclusão: sou um sujeito artesanal.

Márcio Hilário

19/05/11


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Misturando Fé e Política

“Claro que dirão que é política, que é subversão,

que é comunismo.

É evangelho de Cristo!”
(D. Hélder Câmara)


A frase que mais me incomodava e contra a qual mais lutei na minha militância pastoral era pronunciada pelos próprios membros da Igreja: “Não se pode misturar a fé com a política!”. Diziam isso para demarcar claramente os limites entre o sagrado e o profano e reafirmar uma série de dicotomias que as polarizavam qualitativamente: à fé caberia alimentar o espírito, enquanto à política pertenceria o domínio do corpo com todas as suas impurezas.

Essa postura, que pode ser em primeira instância ingênua ou alienada, acaba mesmo sendo perversa. Ela desconsidera o fato de que historicamente a Igreja enquanto instituição sempre esteve ao lado dos poderosos e de suas mais diversas formas de governar: abençoou os tiranos, ungiu os ditadores e benzeu os déspotas. Organizou ainda manifestações públicas, guiou as famílias nas marchas e, em nossa história recente, atacou a democracia, apoiando abertamente o golpe militar de 1964.

Seria correto afirmar, então, que a Igreja não se envolve em política? O que de fato ocorre é que ela não é contra a política em si, mas contra um certo tipo de política. Como diria D. Pedro Casaldáliga, existe a política de uns e a política de outros; a política a favor e a política contra. Sendo assim, o alheamento que se propõe ao não querer misturar fé e política é, na verdade, falso, porque, no fundo, ele representa a adoção de uma postura fundamentalmente política: qual seja, o conservadorismo. Afinal, se não se quer mudar é porque o que há está bom.

A ação política militante e a mística evangelizadora estão nas bases do cristianismo. Afinal – nas palavras de Frei Betto – Jesus não morreu de velhice deitado em uma cama e nem caiu do camelo e quebrou o pescoço, mas sim foi um preso político, vítima de tortura e assassinato por defender seus ideais de fé e de sociedade. E nos dias de hoje, como para podemos falar em nome do “Pai nosso” sem lutar para garantir a todo ser humano o “pão nosso”? Solidariedade é, pois, nesse sentido, combater intensamente a todo esse sistema que produz a miséria, a fome e a exclusão social. Ter fé é alimentar-se do espírito transformador e lutar diariamente por justiça. E isso é, antes de tudo, uma postura política. Enfim, frase por frase, eu sempre preferi aquela do Leonardo Boff que diz assim: “Sou marxista, porque sou cristão”.

Márcio Hilário

29-04-2011


video

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Anel de Tucum

O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro.

(Leonardo Boff)



O uso do Anel de Tucum remete suas origens ao Brasil imperial. Enquanto os senhores de engenho e os demais representantes das elites se adornavam com jóias feitas de ouro e pedras preciosas, ostentando, assim, sua riqueza e seu poder, esse pequeno objeto do artesanato indígena ganhou novo significado e passou também a ser usado por escravos e despossuídos como aliança matrimonial, elo de amizade e, mais amplamente, como sinal da luta por libertação.


Como símbolo religioso contemporâneo, o anel identifica os cristãos que se alinham com a opção preferencial e solidária pelos pobres praticada pela Teologia da Libertação. Na esteira das transformações oriundas do Concílio Vaticano II (1962-65) – que orientou a busca por um papel mais participativo para a fé na sociedade, com atenção especial aos problemas sociais e econômicos – e das Conferências Episcopais de Medelín (1968) e Puebla (1979), diversos religiosos progressistas da América Latina abraçaram definitivamente a causa dos excluídos. No Brasil, desenvolveram-se nos anos 70/80 em todo o país as Comunidades Eclesiais de Base e as Pastorais Sociais (Operária, do Negro, do Índio, da Terra etc.).

A essência dessa proposta teológica – radicalmente oposta ao conservadorismo eclesiástico – está no deslocamento do centro para as periferias. Ou seja, nela os excluídos são vistos não como aqueles que recebem as migalhas do mundo dito civilizado, mas sim como os protagonistas do novo mundo. Não basta, pois, condenar moralmente a miséria, a injustiça e a opressão. É preciso combatê-las historicamente e romper com o sistema que as produz. Nessa linha de entendimento, a verdadeira igreja nasce de um povo que se organiza.

Essa precisa ser uma opção de todos nós, religiosos de todas as confissões ou ateus, unidos em comunhão numa aliança pela solidariedade. Tucum é o nome de um tipo de palmeira amazônica, que tem um caule cheio de espinhos e dá um fruto adocicado e saboroso. É dela que se faz esse anel. É ela que deve inspirar quem o usa. Por fora, ter os espinhos prontos para lutar em favor dos pobres, dos negros, dos índios, dos torturados, dos homossexuais, das mulheres vítimas de violência e de todos aqueles que sofrem algum tipo de injustiça. Todavia, por dentro, conservar sempre tenro e doce o sentimento de compaixão, ternura e amor ao próximo.


Márcio Hilário.

12-04-2011



quarta-feira, 30 de março de 2011

O nariz do palhaço



"Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço

Foi esse o meu amargo fim"

(Luiz Reis e Haroldo Barbosa)


Ainda cheio de sonhos e utopias, meu amigo mais parecia um recém-formado, apesar de já ter mais de dez anos de experiência. Recebeu o paciente e realizou atenciosamente uma pequena entrevista, tomando nota de cada mínimo detalhe. Em seguida, examinou-o minuciosamente: fez a medição da pressão arterial, auscutou o coração e os pulmões, checou a pulsação, analisou os olhos, verificou a garganta etc. Enfim, chegou a um diagnóstico e prescreveu uma dieta básica e alguns exercícios.



O paciente não seguiu a recomendação e o que é pior: acabou piorando. O médico tentou outra coisa: mudou a dieta e cortou alguns exercícios que exigiam um pouco mais de esforço. Quem sabe adaptando a prescrição à realidade do paciente, as coisas fiquem mais fáceis. Não funcionou. O paciente não fez nada do que lhe foi receitado. Já sabia o que fazer: substituir a dieta por remédios, assim o paciente não precisaria se preocupar em fazer dieta alguma. E também só deixou na lista os exercícios mais simplórios, só para não deixar o paciente sedentário. Resultado: zero.



Recorreu, enfim, ao método do doutor Patch Adams – aquele médico colocava nariz de palhaço e fazia graça para aliviar o sofrimento dos pacientes; virou até filme, interpretado por Robin Willians. Além do nariz vermelho, passou a usar um jaleco colorido, sapatos bem grandes, anteninhas e óculos de mola. O paciente adorou, achou graça de tudo e ficou certamente cheio de felicidade. Mais feliz e muito mais doente, porque, ao voltar para casa, continuou a não seguir as recomendações médicas.



Meu amigo me telefonou, perguntado o que deveria fazer agora. Já tinha tentado de tudo e o paciente só ia de mal a pior, parecia que nem se importava com a própria saúde. Assim ele iria morrer. Como seu médico, será ele seria responsabilizado por essa morte? Infelizmente, tive de dizer ao amigo que não poderia ajudá-lo em nada, no máximo ser solidário, até porque há alunos que adotam exatamente a mesma postura desse paciente, enquanto nós continuamos a usar pedagogicamente um nariz de palhaço. E para piorar, no nosso caso não resta a menor dúvida: a culpa é sempre do professor.



Márcio Hilário


30-03-2011

terça-feira, 29 de março de 2011

Banheiro de Paes



“– Mãe, quero fazer cocô. – Tá bom, vamos! – Não, eu quero ir na casa do Pedrinho!”. Quem não se lembra desse diálogo escatologicamente fofo entre mãe e filho no comercial do “Glaid”? Apesar de demonstrar aquela inocente inveja típica das crianças, que adoram as novidades perfumadas da latrina alheia, o nosso “Barrozinho” – mais amigo do rei que Manuel Bandeira – nem sequer reivindicou para si um trono semelhante ao do pequeno monarca, mas sim queria ter um livre acesso ao mais íntimo dos aposentos reais.


E já que falamos da nobreza, lembremos também do clero, como no filme “O Banheiro do Papa”. Ali naquela cidadezinha da fronteira Brasil-Uruguai, os pobres moradores fizeram de tudo para ganhar alguma graninha com a visita de Sua Santidade. Claro! Afinal, os jornais anunciavam que centenas de milhares de peregrinos viriam de todas as partes só para receber as bênçãos do Pontífice. E como nem só de fé vive o homem, muitos quitutes foram preparados e colocados à venda por quem podia e quem não podia. Já quem podia ainda menos teve de se preocupar com o número dois e construir um puxadinho no quintal de casa para aliviar o corpo e a alma dos fiéis. O problema é que o espetáculo religioso não teve a magnitude anunciada pela mídia e o banheiro do papa acabou permanecendo imaculado,virgem e santo.


Finalmente, depois da nobreza e do clero, o saneamento básico de nossa pirâmide medieval se completa com a plebe, sempre rude e apertada. Como nem todo mundo pode contar com um amiginho solidário e receptivo e como o banheiro do papa fica há milhares de quilômetros do Rio de Janeiro, ao folião, que não queria ter o seu pinto engaiolado no carnaval carioca, só restou apelar à boa fé do prefeito com a seguinte plaquinha em punho: “Xixi aqui não, só na casa do Eduardo Paes”. Pode ser apenas fofoca desse povo, mas dizem que o Pedrinho não sai de lá.


Márcio Hilário


29-03-2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Combate aos mijões: falta educação... mas também falta estrutura!!!


Acabei de mandar para o jornalista Ricardo Boechat!!!



Queridíssimo Boechat,

Como educador, obviamente apóio a luta contra o péssimo hábito de urinar nas ruas, mas, para que ela seja realmente vitoriosa, precisaremos mais de banheiros do que de algemas. Veja o que saiu na capa de “O Globo” no ano passado:


“Uma multidão lota a Avenida Rio Branco durante o desfile do Monobloco, que encerrou o carnaval deste ano, reunindo cerca de 350 mil foliões. Apesar dos 300 banheiros no percurso do bloco, 35 pessoas foram detidas urinando na rua.” (O Globo, 22 de fevereiro de 2010.)

Ora, com essa relação candidato/vaga de mais de 1000 por banheiro, haja algemas para o carnaval carioca! No Bola Preta, com 1 milhão de pessoas, para dar vazão, o sujeito era praticamente obrigado a ir na sua vez com mais uma ou duas pessoas, conhecidas ou não!!! Olha o constrangimento e a falta de segurança!!!

Não sou adepto da “mijação pública” e já não faço mais “pipi nas calças” desde bebê. No entanto, vale lembrar ao prefeito Eduardo Paes que, para não entrarmos no bloco dos mal educados, nós precisamos de um número bem maior de banheiros públicos. Ou será que poderemos usar, na hora do aperto, o camarote da prefeitura?

Um grande abraço,


Prof. Márcio Hilário.

22-02-2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"O Poderoso Chefão" e a Bola da vez

“− A vida inteira tentei subir de nível na sociedade, para onde seria tudo legalizado, correto... Mas quanto mais subo, mais vejo desonestidade. Quando isso vai acabar?” (Michael Corleone)



Não é de hoje que “honestidade” tornou-se uma palavra raríssima. Eu chego a duvidar que ainda exista no dicionário. Segundo Michael Corleone, ela seria um valor inversamente proporcional ao status do sujeito. É por isso que, no último filme da trilogia, ele acaba desistindo do seu sonho de legalizar a Família, tornando-a respeitável na sociedade. Além disso, o velho Don chega à triste conclusão de que o mundo considerado legal está alicerçado fundamentalmente na ilegalidade. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, como já diria um dos nossos ditados populares mais conformistas. Tudo bem, mas já que nos lembramos do povo, que tal falarmos das festas populares?


Certa vez, no sábado de carnaval, enquanto eu disputava um pedacinho de chão com outras centenas de foliões que acompanhavam o tradicionalíssimo “Bola Preta”, pude viver na prática uma experiência de puro exercício do micropoder. Foi uma daquelas que o Michelzinho certamente iria gostar.


Era um cenário muito aquém dos prefeitos cariocas: barracas e ambulantes tomando conta das ruas e das calçadas lotadas, enquanto outras se equilibravam nos muros dos edifícios históricos, caricaturando um novo centro da cidade. Os barraqueiros pernoitam no local onde pretendem erguer seu pequeno quintal para receberem os amigos e os parentes, que comerão, beberão e sambarão como se estivessem em verdadeiros camarotes. Embora não fosse “morador do condomínio”, meu Tio Carlos chegou cedo e achou um tipo de “terreno baldio”, um vão entre duas dessas barracas. Não teve dúvidas, arrumou um fio de barbante e cercou o terreno, ou melhor, “O Camarote do Carlão”.


É claro que essa privatização do espaço público e atrapalha a livre circulação das pessoas. Com todo aquele aperto, portanto, nosso humilde puxadinho havia se transformado num latifúndio que afrontava aos transeuntes desterrados. Logo, nesse contexto, duas senhoras reclamaram muito do absurdo que estávamos fazendo, pois, afinal, a rua era pública, lugar de todos. E elas tinham razão. Por isso mesmo, baixamos o barbante e dividimos nosso lugarzinho com todos. As doces senhoras obviamente foram as primeiras a escolherem seu cantinho do lado de cá do barbante. Só que, em menos de cinco minutos, a reclamação já era outra: ó, meninos, é melhor fechar aqui senão todo mundo vai entrar, hein!


Pois é, se Michael Corleone estivesse no “Bola Preta”, veria que infelizmente em nossa sociedade, na “periferia do capitalismo”, cidadania é bandeira de quem está por fora, porque, no fundo, todo mundo quer mesmo arranjar um barbantinho, uma barraquinha, uma pulseirinha vip, uma camisetinha, um camarotezinho, e assim vaizinho. Afinal, só dá pra estar lá em cima, quando alguém fica cá embaixo, né?


Márcio Hilário

01-02-2011